domingo, agosto 21, 2005

O Golpe Já Era, agora é Sacanear o Governo Para a Direita Voltar ao Poder!

ENTREVISTA
Wanderley Guilherme: "Oposição perdeu a hora do golpe branco"

Para o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, oposição agora quer "sangrar" presidente; ele prevê um "racha" no PT

oposição deixou passar "a hora do golpe branco". PSDB e PFL refizeram os cálculos e avaliam, agora, que é melhor "sangrar o governo, sangrar o presidente da República" do que partir para uma tentativa de impedimento de Luiz Inácio Lula da Silva.

A opinião é do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, professor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro). Em meados de junho, ainda no começo da crise, Santos provocou polêmica ao afirmar, em sua coluna no jornal "Valor Econômico", que, a julgar pelo comportamento de tucanos e pefelistas, o "novo lacerdismo" havia "se mudado para São Paulo": a oposição preparava um "golpe branco" contra o governo.

Agora, diz o professor, a situação mudou. "Já passou a hora do golpe branco, sim. E isso cria um problema complicado, porque, agora, se houver motivos jurídicos e políticos razoáveis que comprovem a participação ou conivência do presidente nesses episódios, ele tem de sair. E aí, quem não quer mais isso é a oposição." Para ele, na arena nacional, o PFL não passa de um "partido laranja" do PSDB.

Quanto ao PT, Santos vê o partido caminhar para um racha. O professor não enxerga possibilidade de um "denominador comum" no confronto entre a ala esquerda, crítica do governo, e a ala que apóia o governo, mas que tem integrantes no centro do escândalo do "mensalão".

O autor de "A Democracia e seu Futuro no Brasil" (2001) avalia essa desmontagem do PT como um retrocesso político brasileiro, que pode dar mais espaço a discursos "populistas demagógicos": "Se isso vier a acontecer, será o grande ilícito que a antiga cúpula dirigente do PT terá praticado".

Santos ainda criticou o oportunismo de uma reforma política neste momento, atacou o que classificou de "omissão" de intelectuais e questionou o papel da imprensa.

A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha, por telefone, na última quinta-feira.

O sr. disse enxergar movimentação para um "golpe branco" da oposição. A estratégia ainda está em curso?

Wanderley Guilherme dos Santos - Fico espantado com a dúvida das pessoas sobre esse assunto, quando ele passou a ser um tópico banal. Basta ver que o que passou a ser discutido todos os dias no começo da crise eram os cálculos da oposição para saber se, quando e como promoveriam o impedimento do presidente.

Quem falou em impedimento foi o ex-presidente Fernando Henrique. Ora, um pedido de impedimento com base no que havia... O que havia era a descoberta de uma transação corrupta dentro dos Correios, mais nada.

A representação tendo em vista o impedimento aparece inteiramente descolada de qualquer argumento em relação aos motivos comprovados que justifiquem o pedido de impedimento. Aparece, isto sim, como discussão em torno da oportunidade.

Ou seja, a discussão não é se há motivos para o impedimento, mas se, considerando o sucessor, o impedimento deve ser promovido. O que é isso? Estão discutindo de forma precipitada o afastamento do presidente. Se é precipitado, significa que não tem base. E isso se chama golpe.

O sr. vê uma "conspiração das elites" contra Lula?

Santos - No século 20, a linguagem educada esteve e está até hoje muito influenciada pelo marxismo e pela psicanálise. Assim, quando se fala em elite, imediatamente, as pessoas educadas pensam em elite econômica, que é a forma primária ou o marxismo primário ou vulgar. Pensam em elite econômica e ficam sem saber como explicar se, afinal de contas, as elites econômicas estão favoráveis ao governo. E não sabem sair desse círculo de giz.

Esses comentaristas, por causa disso, ficam extremamente incapacitados de perceber algo que está acontecendo e que é raro ver dessa maneira, que é a luta pelo poder nua e crua. Trata-se de disputa por poder. Quem não enxerga isso perde a oportunidade de ver essa disputa, as estratégias que são utilizadas, as manobras.

Como o sr. avalia o comportamento da imprensa na crise?

Santos - O que está em jogo é o seguinte: como é que o sr. Roberto Jefferson conseguiu obter a projeção que obteve e levar durante muito tempo a CPI dos Correios pelo "narizinho"? Por que ele conseguiu isso? Porque ele estava falando a verdade? Não. Porque interessava ao PSDB e ao PFL.

Só por isso. Achar que é porque ele estava falando uma coisa que chocava... Se fosse só isso, não dava. Se não desse no "Jornal Nacional", não acontecia tudo isso. E, para dar no "Jornal Nacional", tem que interessar ao PSDB e ao PFL.

Por exemplo, não foi suficiente o editorial da Folha [no episódio da compra de votos para a provação da emenda da reeleição de FHC, em 1997] para criar um escândalo.

E por que foi diferente no caso de Jefferson?

Santos - Porque é do interesse das Organizações Globo. Isso é um outro tema. Quando digo imprensa, eu quero me referir implicitamente às Organizações Globo, que são um problema dentro do processo político brasileiro.
O "Jornal Nacional" tem a emoção da opinião pública brasileira sob controle. Durante o mês passado, as ansiedades, expectativas e angústias eram geradas pela dramaturgia do "Jornal Nacional". Ele tem controle sobre a temperatura da emoção. Isso não é algo que deva ser considerado normal em uma democracia.

O que acontece é que, em países como o Brasil, a imprensa é um ator político relevantíssimo. Sua moeda é justamente ter poder sobre a emoção da opinião pública. Para que serve esse poder? Para obter conformidade de governo.

Fonte: Folha de S. Paulo