sábado, junho 25, 2005

O Funk-Bunda serve a quem?

O que primeiramente nos chama a atenção é que o comportamento de sexo coletivo deflagrado nos bailes funk não se trata propriamente de comportamento social, no sentido de ética grupal, referente aos assuntos da comunidade, mas sim de algo AQUÉM do social.

Tais atitudes revelam pessoas aparentemente incapazes de discernir o que e quais são seus direitos e deveres, responsabilidades e as relações de causa-efeito naturais quando se vive em sociedade. Suas ações parecem movidas unicamente pelo instinto, próprias de um Id primal que parece desconhecer a implicação de quaisquer atos feitos em grupo.

Ainda usando Freud como bússola básica, sabemos que os instintos do Id podem estar voltados para a criação e prazer (instintos de Eros) ou para a destruição e morte (instintos de Tânatos). O que percebemos a partir do comportamento desses jovens é uma necessidade de satisfação de instintos sexuais que não visa ao prazer e à criação propriamente, mas uma satisfação aliada à violência (física e psicológica) com instintos auto-destrutivos, para não dizer suicidas.

A bem da verdade, o funk, enquanto dança e representação musical, é apenas um grande catalisador emocional para esses jovens. Trata-se de um elemento cultural de uso e entendimento comuns, que reflete suas posturas sociais típicas e tem a capacidade de agregá-los num mesmo lugar, motivados pelos mesmos desejos e propósitos. Do comportamento desses jovens e da análise da letra de algumas músicas ditas funk, de estrondoso sucesso atual (como as do grupo "Bonde do Tigrão" e "Furacão 2000"), pode-se depreender que esses jovens não estão preocupados em compor verdadeiramente um movimento urbano de contestação social e muito menos de rebeldia política, visto que não apresentam críticas sérias de ordem social e não têm um poder sólido de congraçamento coletivo ao nível ideológico.

Tais jovens não parecem entregar-se ao sexo deliberado nos bailes de forma consciente, usando o sexo livre como instrumento de reação a uma suposta forma de dominação política, por exemplo. Eles não realizam nenhuma transgressão, seu ato não se opõe ideologicamente a nenhum outro.

Não há crítica, questionamentos de qualquer espécie. Sua conduta é a-moral e a-ética, não se rege por princípios de pertencimento ou de exclusão social. O sexo livre nos bailes não é um meio para se atingir um determinado fim, mas um fim em si mesmo. Os jovens parecem livres de qualquer apego ao social, preocupados somente com uma satisfação básica reptiliana.

Estas moças e rapazes representam o que pode existir quando uma sociedade não oferece mínimas condições de sobrevivência social digna e satisfatória. São jovens fruto de núcleos familiares desestruturados ou inexistentes, que carecem do aprendizado social formal e informal que os pudesse preparar para viver satisfatoriamente em sociedade.

Estas meninas e meninos, cujo comportamento inconseqüente dá indícios de uma idade mental e emocional típicas de um estágio de vida infantil pré-socializado, são o produto estatístico de uma sociedade que não se preocupa com o abismo social e cultural inóspito em que está mergulhada grande parcela da nossa população.

Fenômenos como este do sexo livre em bailes funk funcionam como sinais sociais de alerta, demonstrando que há problemas sérios e necessidades mal-resolvidas. Lembrando que não há como satisfazer as necessidades secundárias de convívio e planejamento social se as necessidades primárias reptilianas de alimentação, moradia, saúde e segurança não forem plena e potencialmente satisfeitas.

Fenômenos como este do sexo livre em bailes funk funcionam como sinais sociais de alerta, demonstrando que há problemas sérios e necessidades mal-resolvidas. Lembrando que não há como satisfazer as necessidades secundárias de convívio e planejamento social se as necessidades primárias reptilianas de alimentação, moradia, saúde e segurança não forem plena e potencialmente satisfeitas.

A sociedade que dorme também deve se sentir responsável pelos monstros que gera e cria, à revelia de sua vigília. Caso contrário, padecerá em pesadelos. Ou acordamos, ou seremos acordados à força, por uma simples questão de sobrevivência social.


Rosy Feros, 29, é poeta e ensaísta (http://www.leiabrasil.org.br/leiaecomente/filhos_trem.htm)